quinta-feira, 21 de maio de 2020

Texto de José Franklin (Sobre Viver)


Gaia e o Corona Vírus, de José Franklin


Passei toda a semana
belas óperas ouvindo
filmes cults afamados
os melhores assistindo
para não presenciar
a raça humana ruindo

Boas pinturas dos mestres
nas coleções eu revi
na literatura clássica
as importantes eu li
e Gaia estava junto
Com certeza eu senti

Na internet vi as grandes
obras da engenharia
também nos livros que tenho
um pouco de poesia
quem sabe a Divindade
larga dessa teimosia.

Deixou o Corona Vírus
pra conosco acabar
sei que a tratamos mal
agora quer nos matar
mas fizemos coisas boas
isso eu queria mostrar.

Quem sabe a Grande Gaia
esta Deusa Vingativa
permita que o bicho-homem
por enquanto sobreviva
perdoando ou deixando
alguma alternativa.
16

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Texto de Rodrigo Ferreira (Sobre Viver)



 Nuvens escuras percorrem meu céu, mas fiquei sabendo que não apenas o meu. O seu, o dela, o nosso! O que fazer em meio ao isolamento social? Se eu pego uma gripe, já fico em choque. Será que peguei a tão temida virose da morte? O que nos resta é a fé, e acreditar que no final você estará de pé. Os que não conseguiram sobreviver foram carregados no caminhão camuflado e não tiveram a chance de serem enterrados e velados. Se cada morto virasse uma estrela imagina esse céu no entardecer? Não teria espaço para a lua aparecer.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Poema de Kevin Oliveira (Sobre Viver)




Manhã calma, tranquila.
Existe esperança?
Pois, não consigo senti-la, nem enxergá-la
O sol nasce aos poucos,
Poucas pessoas começam a andar
Vão viver suas vidas
Calmas, tranquilas.
O que estou fazendo?
Perdido, parado, sem conseguir me mover...
Manhã calma, tranquila
Existe paz?
Há tantas coisas que quero ver e dizer
Mas não consigo;
Há tanto medo no meu peito
Mas, medo do quê?
A brisa suave me diz que o medo é desnecessário,
Pois, em algum momento tudo vai acabar.


domingo, 17 de maio de 2020

Mais três poemas sobre viver


Solitude, de Brunno Vianna


Cheiro de chuva
Assobio
Abraço de música
Flores respiram o jardim
Lua na janela
Poema enfeita alma com cor
De cor em cor
Se tem um coração
Começa um dia de solitude
Sem solidão.





Vejo, de Brunno Vianna

Vejo hoje cedo
Nos olhos de outrem, o medo
A rua é um fantasma
Recolhidos do sol e das cores
São aqueles da asma
Vejo a insensatez transvertida de coragem
Quisera o mundo
Que a maresia fosse um poço de miragem
Estar perto já não é certo
A máscara que ofusca também revela
Que a Terra gira em aquarela
E agora retornam as cores
A estado natural de ser
Respira hoje
Na confiança que o próprio tempo
Tem o tempo de acontecer.



Silêncio da cidade, de Brunno Vianna


No silêncio da cidade
Espalho poesia à vontade
Para aquecer a alma
Emanar a calma
E esperar o tempo passar.




sábado, 16 de maio de 2020

Três Contos Sobre Viver


Durma com um barulho desse, de Antônio Evangelista



         Eram seis horas da manhã. Alguns moradores chegavam do trabalho, outros se preparavam para pegar no batente. As crianças sonolentas seguiam para a escola. Até que um transeunte curioso parou de andar quando percebeu algo de anormal. Aos poucos, um a um ia parando e olhando na mesma direção do transeunte curioso.
            Alguns olhavam incrédulos. Outros faziam galhofas. Outros ainda filmavam com a câmera do celular para postar no Instagram ou no grupo do Whatsapp. A nova mania nacional! Todos cochichavam entre si ou com seus botões. 
- O que esse louco faz em cima do muro?
- Parece até que está morto! Vejam como ele espuma pela boca!
De fato, havia um homem deitado em cima do muro. Um muro estreito que o deixava com os braços e as pernas pendentes, como um bicho preguiça. O que realmente o denunciava morto. Abaixo havia outro muro, com cacos de vidros que impediam a entrada de invasores gatunos. E o portão da casa ao lado era todo com lanças pontuadas.
A rua já estava repleta de curiosos que, até apostavam sobre a situação do pobre homem. Uns apostavam que ele estava morto; outros, que estava bêbado! Vejam até que ponto chegou o ser humano. Havia até uma repórter de uma TV muito famosa por ser sensacionalista.
Somente uma pessoa teve o coração tocado para chamar uma ambulância do Corpo de Bombeiros: um menino que vendia jornais nas suas horas vagas da escola.
Com os bombeiros chegou uma viatura da polícia, que já pedia para a multidão dispersar para os heróis poderem trabalhar.
Os bombeiros chegaram no ponto onde estava o suposto moribundo que, atordoado, começou a se levantar. O tenente da operação fez as perguntas de praxe: qual o nome, quantos anos tinha e quantos dados ele mostrava na mão.
Os corajosos socorristas conseguiram resgatá-lo e trazê-lo até a rua, onde os que apostaram que ele estava morto reclamavam o dinheiro perdido. Ainda atordoado com tanta gente, com os olhos vermelhos de tanto lacrimejar e com bastante coriza escorrendo pelo nariz, perguntou o motivo de tanto alvoroço. Se havia alguma celebridade ou político naquele bairro. A repórter se aproximou e falou:
- Por favor, senhor. Diga para os nossos espectadores como se sente depois de juntar tanta gente na rua, nos seus quinze minutos de fama e qual motivo o fez ficar em cima do muro.                            
- Eu me sinto muito é incomodado! Ontem eu estava com uma baita dor de cabeça, chorando pelos olhos e pelo nariz de tanta gripe. Fui até a UPA, estava lotada, fiquei o dia todo esperando e quando chegou a minha vez, o médico foi chamado para uma cirurgia de emergência. Saí de lá furioso, parei uma birosca, tomei umas pingas e, à noite, fiquei perambulando pela rua. Não consegui dormir a noite toda. Só agora de manhã. Quando eu estava começando a relaxar, escutei essa zoeira toda. Quem consegue dormir com um barulho desse, madame?

Mosaico, de Brunno Vianna


Uma janela. De frente para ela, outra janela. Luzes acesas. Dançam feito vagalume. Ruas vazias. Olhar a lua virou um costume.



Clima de Tensão, de Brunno Viana

Tira um sapato e o outro. Abre a porta. Fecha a porta. Passa álcool em gel na maçaneta. Passa álcool em gel nas mãos. Espirra. Clima de tensão! Corre para o banheiro, lava a mão, lava a torneira, lava o mundo inteiro e aguarda, mas outro espirro não vem. Sente um alívio. Senta no sofá, pega o controle remoto e liga a televisão. O telejornal fala sobre a pandemia. Muda de canal. O outro telejornal fala sobre a pandemia. Clima de tensão! Liga para os amigos. Uns dão boas notícias, outros dão más notícias. Desliga a televisão. Precisa ir à farmácia. Abre a porta. Fecha a porta. Passa álcool em gel na maçaneta. Coloca um sapato e o outro. Olha para o sol. Espirra. Clima de tensão! Pensa em ir ao médico mais tarde. Pensa em não ir. Precisa ir à farmácia. Sai. Em menos de quinze minutos já está em casa novamente. Tira um sapato e o outro. Abre a porta. 


sexta-feira, 15 de maio de 2020

Três poemas sobre viver!


Os gestos mais bonitos, de Guilherme Aniceto 

Ocorrem de longe,
Na limitação do abraço,
Na restrição do beijo,
No controle do afeto.

Os gestos mais bonitos
Desabrocham, silentes,
Como sentinelas de um tempo
Que passa devagar.

Assopro-te um beijo,
Encerro-o nas mãos
E entrego ao meu peito
Como promessa.

Depois da tempestade,
Há de vir um tempo
Em que tocar o outro
Terá mais significado.




 Por hoje, de Brunno Vianna 
Por hoje o tempo me leva
Ao rosto perpetuado do porta-retrato
Repouso no espaço o abraço
No espelho criado de improviso
Aviso que mora a vaidade
Sinto no peito
Sem jeito a saudade
De outros de mim
Que bate sem fim nos meus medos
Já cedo, empalideço
São quinze “pras” cinco
E sinto agora mais que antes
O peso das horas, do livro e da estante
E esta saudade das ideias
Que lentamente me devora
Esta saudade que se sente, mas não se diz
Saudade do que não fiz
Saudade sem saída, que abre a ferida
E declama a poesia pra brincar de ser feliz.



Ter, de Brunno Vianna

Ter entre o tempo e o espaço, um abraço
Ter entre as mãos e as ideias, a cura
Ter entre as letras, o alento
Um dia, quem sabe, literatura
Ter entre a fé o sol, afeto
Entre a imensidão e a canção, deserto
Entre a presença e a ausência, o poema
Carregado de todos nós
Costurando a ternura numa só voz.         

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Textos Sobre Viver

Com o objetivo de incentivar a leitura e a escrita, e também para ocupar as pessoas em casa nesses tempos de isolamento social, idealizei uma antologia literária de forma independente intitulada Sobre Viver. O projeto conta com onze escritores que escreveram seus textos ao longo da quarentena. Estou trabalhando para que o acesso aos textos seja amplo e gratuito para todos. Por isso, estou retomando o blog Encontro de Cultura, onde os trabalhos serão publicados em primeira mão. Alguns também constarão na página @espelhodeleituras, do Instagram. Por hora, anuncio os onze participantes:


Antônio Evangelista, Brunno Vianna, Clodoaldo Lima, Felipe Favrat, Guilherme AnicetoGuilherme Laport, José Franklin, Kevin de Oliveira, Rodrigo Ferreira, Samuel Joaquim e Wilson Guanais.