segunda-feira, 19 de maio de 2014

Mulheres de Nelson no Teatro Miguel Falabella

Ninguém escreveu / descreveu a mulher tão bem quanto Nelson Rodrigues. Partindo deste princípio, Izaac Erder e Márcio Zatta reuniram num único espetáculo, cinco personagens femininas do anjo pornográfico. Ali, questionando a sociedade como um todo,  elas se conhecem e se reconhecem, sem fugir do universo rodriguiano. Descobrem que são muito parecidas, a começar porque são todas mulheres de carne e osso. Além de questionar a sociedade, as Mulheres de Nelson questionam a si mesmas, e de certa forma, também, o Nelson Rodrigues.
Quem já assistiu Apocalipse, outra peça da Cia Teatro da Estrutura, certamente não vai se surpreender tanto, mas isso não tira o mérito do elenco, nem da direção. Estão todos muito seguros em cena e a dinâmica proposta faz com que você não tire sua atenção do espetáculo que conta com Helen Maltasch, Carol Mattos, Fellipe Gonçalves, Sarah Diniz e Cristiana Carvalho. E segue em cartaz até o dia primeiro de junho na Sala Atores de Laura do Teatro Miguel Falabella. Sextas e Sábados às 21:30 e domingos às 20:30. Se você não conhece a obra de Nelson Rodrigues, assista. Se conhece, assista também. Vale a pena. 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Entrevista com Juliano Feldens

No dia primeiro de agosto de 2013 entrevistei o ator Juka Garibaldi. Hoje, 14 de maio de 2014, entrevisto o ator Juliano Feldens. Quem é o Juka e quem é o Juliano?

Na verdade a mesma pessoa,nunca fui uma personagem...O "Juka" é meu apelido,por ser um apelido começou a ser visto por mim,como um diminutivo,até brinco que "Juka" pode ser cachorro,papagaio,periquito...O "Juliano" é o cara que nasceu no sul,veio morar no Rio,se formou em teatro e está amadurecendo,e por este motivo,por estar mudando,achei necessário a mudança no nome.

Por que você assumiu agora o seu nome de batismo? Essa mudança foi repentina ou você já estava pensando em aposentar o seu apelido?
Então...estou num outro momento,de vida,de carreira,um momento de experimentos adultos,processos mais alternativos,buscas de "gente grande" eu já vinha trabalhando isso,uma vez cheguei até fazer uma enquete aqui na internet,na ocasião venceu o "Juka",mas com o passar do tempo,isso começou a me incomodar,digo como artista...Pois não nego nada o que eu fiz,mas as pessoas estão acostumadas a associar minha carreira a coisas infantis,peças e atuações para este público....óbvio que tem isso!Mas não quero somente essa associação entende?Sou um ator, e não somente um ator de peças infantis...Já fiz bastante coisa adulta também,mas o Juka é linkado ao infantil...O Juliano veio para mostrar que sou multifacetado....e quero que me vejam como um camaleão da arte!

E as pessoas já estão se acostumando a te chamar de Juliano?
Então...kkkkk...As vezes alguém me liga e fala :Juka,ai a mesma pessoa me chama inbox: Juliano você tá ai?Acho que a composição do nome é bem melhor...E com o tempo todos vão acostumar,o mais "doido",foi enviar um e-mail para cada produtor de teatro, Tv, cinema e publicidade explicando o porque da mudança...mas sabe?todos gostaram.

Se não fosse ator, o que você seria?
 "Caracoles!"Paisagista,decorador ou produtor de moda ou botânico, algo que estudasse a natureza, coisas que pra mim não deixam de ser arte. Mas um sonho futuro é ter um sobrado,um espaço para dar aula de teatro,fazer um brechó e ter um café,um sebo de discos e livros.tudo junto....uma espécie de 'QG" da arte! onde possa expor minha coleção de brinquedos e fazer leituras,receber artistas,produzir minhas peças no meu próprio espaço.

Sei que ao longo de sua carreira, você trabalhou com peças infantis. Fale um pouco da sua experiência com este público.
Então,certamente é um público,muito especial...Me sinto uma pessoa também especial,porque tenho o carinho deles...Chegar no coração das crianças não é para qualquer um,eles sentem quem é especial...E o o mais legal é ver um pai,vindo me abraçar ou apertar a minha mão,pois os "homens"não são muito disso...E quando isso acontece é porque eles também compraram a ideia,sempre fiz com o coração e sempre farei! Muita coisa que eu tenho e consegui,foi graças ao público infantil...tenho muitas coisas que quero fazer ainda pra eles,mas numa linha cada vez mais educativa e não somente lúdica.


Qual peça você não faria?

Olha,eu não faria algo que eu não acredite...Teve um tempo,que acho que não foi privilégio meu,muita gente passa por isso...Que a gente faz algumas coisas muito "toscas" para pagar contas,e sobreviver...Mas a vida vai se encarregando de te fazer ter mais oportunidades...Agora estou num outro momento,posso me dar a chance de não fazer mais coisas que me agridam como artista...Não faria mais o que não acredito.


Na outra entrevista você chegou a comentar que tem insônia e interpretou um personagem com uma fobia, o medo de morrer dormindo. Como foi encarar esse desafio? Isso alterou de alguma forma sua vida pessoal?

Olha,muito boa essa pergunta..rsrsr...Pois fazem 4 meses que venho fazendo tratamento para insônia...sempre fui uma pessoa que dormia tarde,mas dormia e sempre acordei cedo....Mas cheguei a um limite e ai fui ao médico,ficando quase 48 hs sem dormir....Estou melhorando,mas foi constado que sou hiper ativo,minha cabeça não para...Eu faço mil coisas ao mesmo tempo,mas infelizmente ou felizmente não sei ser diferente.Agora tenho feito caminhada,meditação e tenho me sentido melhor,mas sou "noturno" não adianta....Posso dormir 4 horas que me acordo a mil tipo:'UHUUU"


O que você indica para um ator que vai fazer seu primeiro teste?

O que você indica para um ator que vai fazer seu primeiro teste? Recebo uns inbox,com essas perguntas,atores que vão fazer algum teste....Na verdade é buscar um monólogo que tenha o seu estilo,que vc possa dar nuances,se for um teste musical,conheça o seu timbre,até onde vc pode ir e busque uma música que te favoreça...Expressão corporal é tudo!Movimento cortante!Nossa e muito carão né? Convencer a você mesmo primeiro!

Já tem algum novo trabalho em vista?

Tenho sim....Amanhã vou fazer a leitura de um texto adulto,para uma montagem que vem por ai...Ainda esse ano vou lançar o "Plimplamplum",sim!ele não virou lenda(rsrsrs)....E tem uma possível volta de uma peça adulta que eu já fiz,vivendo um personagem que foi um grande desafio ter feito,é provável que eu reviva uma "Rainha" muito má!E de boa né?Eu quero ainda fazer no mínimo mais uns 5 projetos esse ano...ta só em maio!Mas projetos bons,que somem.


Juka, ops, Juliano, muito obrigado por mais uma entrevista.  É sempre muito bom aprender um pouquinho contigo sobre esse amplo universo teatral.  Sucessos na sua carreira e na sua vida.

Sucessos na sua carreira e na sua vida. Eu é que agradeço e desejo vida longa para vc,para o Blog e pra vc que está lendo...se gosta de mim ok!senão "beijinho nas costas"...valeu gente!!!!

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Bodas pelo Avesso no Teatro das Artes

Joana (Naura Schneider) sonha em comemorar bodas de prata. Não haveria nada de estranho nisso se não fosse a ideia de reunir seus três ex maridos, já que os anos de duração dos três casamentos juntos somam vinte e cinco anos. É claro que isso acarretaria numa grande confusão. Joana volta a ser alvo dos três homens, interpretados por Antônio Fragoso, Luiz Guilherme e Douglas Sampaio.Enquanto isso, sua amiga Lu, vivida por Mariana Bassoul, não consegue de maneira nenhuma encontrar sua cara metade.
É no jantar que as qualidades e defeitos até então desconhecidos de Joana vão aparecendo cada vez mais e mais, a caracterizando como uma mulher de várias facetas. Na verdade ela foi se transformando no convívio com cada um dos maridos, assim como eles também se transformaram.
Prestes a completar cinquenta anos, o que Joana deseja é viver em paz com seu passado, é juntar numa única noite algumas das pessoas mais importantes de sua vida. Ela quer mostrar que o amor não acabou, mas se tornou uma bela amizade.
Bodas pelo Avesso é uma peça leve e divertida. As marcações são bem elaboradas.  O leitor acaba se identificando com um dos maridos ou com uma das Lauras, já que nos dias de hoje os relacionamentos terminam por qualquer coisa. 

O espetáculo escrito por Ecila Pedroso sob a direção de Márcio Trigo. Segue em cartaz no Teatro das Artes (Shopping da Gávea) sempre quartas e quintas às 21:00. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Apocalipse

Um homem te guia pelos cômodos de uma casa sombria onde as coisas mais inusitadas acontecem. Este homem é João Batista,  vivido brilhantemente pelo ator Charlles Lima. Eu bem que tentei, mas é impossível definir o itinerante espetáculo Apocalipse realizado pela Cia da Estrutura em poucas palavras. Para quem não sabe, a Cia da Estrutura também foi responsável pelas montagens "Mulheres de Nelson", "Vem!"  e "Hoje tem Espetáculo". Ousadia é um ponto marcante nos trabalhos deles. Não tem como sair do recém inaugurado Escombro Centro Cultural e permanecer indiferente. Ao ver o João ser constantemente humilhado questionamos porque assistimos muitas coisas de braços cruzados. Por que o Brasil ficou desse jeito? Por que o ser humano é desse jeito? Apocalipse é o tipo de peça que você ama ou odeia, não tem espaço para o mais ou menos. É chocante do início ao fim. Para os moradores da Zona Norte do Rio de Janeiro até então carentes de um espaço cultural e que gostam de surpresas, a peça escrita por Izaac Erder e Márcio Zatta e dirigida por Márcio Zatta é um prato cheio por justamente sair do lugar comum; em vez de uma estória propriamente dita, eles se aproveitam das situações, sendo a reação do público,  uma peça fundamental neste jogo.  É muito bom ver artistas como Charlles Lima, Fellipe Gonçalves, Helen Maltasch, Otto Caetano, Carol Mattos, Henrique Ramalho e Stefanie Durval, no geral, com boas expressões faciais e também corporais se despindo de qualquer pudor, orgulho e vaidade em prol dessas riquíssimas  e exigentes personagens. Eu conferi e recomendo. Aproveitem que a temporada está acabando. 


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Edypop

Mapa astral, alfabeto grego espalhados pelo chão, um globo ocular gigante e manifestantes mascarados marcam a mais nova produção da Aquela Cia de Teatro.
Edypop, que insere no drama grego críticas ao atual momento político brasileiro, não conta necessariamente a história de Édipo, mas a de seu pai Laio.
A peça possui excelentes interpretações de Remo Trajano (Laio), Letícia Spiller (Jocasta), João Velho (Édipo) e Jorge Caetani (Freud). O musical traz canções de John Lennon;
Laio representa o Estado fragilizado, enquanto a própria força se encontra na Jocasta.











sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Primeira Dama da Costa Bela

No dia 02 de fevereiro assisti o espetáculo “A Primeira Dama de Costa Bela” do Davi Giordano. Primeiramente, muito me agrada ver no teatro uma peça que aborde a América Latina, e mais do que isso, consegue refletir suas peculiaridades e contradições, num momento em que as influências que sofremos são nitidamente norte-americanas.

Trata-se da história de uma primeira dama, impedida de pintar porque sua arte é uma ameaça política para o partido de seu marido. É bem interessante como a trama desdobra, a ponto dela, no final do espetáculo, tornar-se a presidente e ele ser o sensurado da vez, mostrando que tudo depende de quem está no poder.


Uma cadela que se chama Evita (alusão à EVITA, outro texto de Davi Giordano e também uma suposta influência que Costa Bela sofreria da Argentina, como se pode ver na versão de “Não chore por mim, Argentina”).


O texto e a direção possuem uma ousadia ímpar. Uma boa sacada de Davi Giordano foi colocar em duas obras que assisti (Evita e A Primeira Dama da Costa Bela), a mãe, personagem sempre marcante em qualquer narrativa, o ponto forte da mulher, sendo interpretada por um homem, e a trilha sonora, representando a teledramaturgia latina, o que veio a somar com o melodrama,implantado na medida certa. 

Seria interessante, que a exemplo dos nossos vizinhos do Cone Sul, outros dramaturgos focassem também na temática latino-americana devido aos últimos acontecimentos ocorridos como a morte de Hugo Chavez, a escolha do primeiro Papa latino americana e as revoluções que estão ocorrendo em solos brasileiros. Para que isso aconteça, a caminhada será longa. Mas, por hora fico muito satisfeito em ver que alguém está escrevendo sobre a América Latina, tão esquecida no teatro e que os trabalhos do Davi, seja Evita ou A Primeira Dama da Costa Bela, são de extrema qualidade. 




Dueto Para Um

Sem dúvidas, o SESC de Copacabana é um reduto dos bons espetáculos. No dia 24 de novembro ocorreu por lá o último dia de apresentação da peça “Dueto Para Um”, que agora em cartaz no Teatro do Jockey em curtíssima temporada. O texto é de Tom Kempinski  e está sob a  direção da atriz Mika Lins. É inspirado na história de Jacqueline Dupré, uma das maiores violinistas do século XIX, que na peça se chama Stephanie, sendo interpretada por Bel Howarick, que ganhou merecidamente o Prêmio APCA 2010 de melhor atriz. A personagem é extremamente apaixonada por seu ofício e no auge da carreira se viu limitada devido à esclerose múltipla e por insistência do marido procurou o psiquiatra Feldmann interpretado brilhantemente por Marcos Damigo.


Ela, esconde por trás do sarcasmos que carrega e do tom grave da voz uma mulher fragilizada e com medo de não conseguir acompanhar o marido. O psiquiatra a confronta o tempo todo, mostrando que outros caminhos existem e que ela pode se adaptar. O problema é esse, ela não quer se adaptar, não quer ser pela metade, quer ser uma mulher inteira para tocar o violino. Trata-se de uma batalha dura pela vida. Apenas quando ele explode e diz as verdades que ela precisava, mas não queria ouvir, é que a ficha começa a cair. 

Os figurinos de cores neutras conseguem igualar a paciente e o médico na condição de humanos, e mais ainda, o fato de estarem vestidos como concertistas nos leva a encarar os personagens como maestros. O texto é impactante e proporciona ao espectador uma reflexão sobre os limites do ser humano, que sem saída, cogita a hipótese do suicídio. No decorrer das sessões de terapia, o publico percebe o avanço da doença através dos olhos, das mãos e das posturas da atriz. Percebe em seus olhos que às vezes da vontade de resistir e às vezes da vontade de resistir. É aí que ele, sensibilizado com a dor da paciente, marca mais uma consulta. 



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