segunda-feira, 5 de maio de 2014

Bodas pelo Avesso no Teatro das Artes

Joana (Naura Schneider) sonha em comemorar bodas de prata. Não haveria nada de estranho nisso se não fosse a ideia de reunir seus três ex maridos, já que os anos de duração dos três casamentos juntos somam vinte e cinco anos. É claro que isso acarretaria numa grande confusão. Joana volta a ser alvo dos três homens, interpretados por Antônio Fragoso, Luiz Guilherme e Douglas Sampaio.Enquanto isso, sua amiga Lu, vivida por Mariana Bassoul, não consegue de maneira nenhuma encontrar sua cara metade.
É no jantar que as qualidades e defeitos até então desconhecidos de Joana vão aparecendo cada vez mais e mais, a caracterizando como uma mulher de várias facetas. Na verdade ela foi se transformando no convívio com cada um dos maridos, assim como eles também se transformaram.
Prestes a completar cinquenta anos, o que Joana deseja é viver em paz com seu passado, é juntar numa única noite algumas das pessoas mais importantes de sua vida. Ela quer mostrar que o amor não acabou, mas se tornou uma bela amizade.
Bodas pelo Avesso é uma peça leve e divertida. As marcações são bem elaboradas.  O leitor acaba se identificando com um dos maridos ou com uma das Lauras, já que nos dias de hoje os relacionamentos terminam por qualquer coisa. 

O espetáculo escrito por Ecila Pedroso sob a direção de Márcio Trigo. Segue em cartaz no Teatro das Artes (Shopping da Gávea) sempre quartas e quintas às 21:00. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Apocalipse

Um homem te guia pelos cômodos de uma casa sombria onde as coisas mais inusitadas acontecem. Este homem é João Batista,  vivido brilhantemente pelo ator Charlles Lima. Eu bem que tentei, mas é impossível definir o itinerante espetáculo Apocalipse realizado pela Cia da Estrutura em poucas palavras. Para quem não sabe, a Cia da Estrutura também foi responsável pelas montagens "Mulheres de Nelson", "Vem!"  e "Hoje tem Espetáculo". Ousadia é um ponto marcante nos trabalhos deles. Não tem como sair do recém inaugurado Escombro Centro Cultural e permanecer indiferente. Ao ver o João ser constantemente humilhado questionamos porque assistimos muitas coisas de braços cruzados. Por que o Brasil ficou desse jeito? Por que o ser humano é desse jeito? Apocalipse é o tipo de peça que você ama ou odeia, não tem espaço para o mais ou menos. É chocante do início ao fim. Para os moradores da Zona Norte do Rio de Janeiro até então carentes de um espaço cultural e que gostam de surpresas, a peça escrita por Izaac Erder e Márcio Zatta e dirigida por Márcio Zatta é um prato cheio por justamente sair do lugar comum; em vez de uma estória propriamente dita, eles se aproveitam das situações, sendo a reação do público,  uma peça fundamental neste jogo.  É muito bom ver artistas como Charlles Lima, Fellipe Gonçalves, Helen Maltasch, Otto Caetano, Carol Mattos, Henrique Ramalho e Stefanie Durval, no geral, com boas expressões faciais e também corporais se despindo de qualquer pudor, orgulho e vaidade em prol dessas riquíssimas  e exigentes personagens. Eu conferi e recomendo. Aproveitem que a temporada está acabando. 


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Edypop

Mapa astral, alfabeto grego espalhados pelo chão, um globo ocular gigante e manifestantes mascarados marcam a mais nova produção da Aquela Cia de Teatro.
Edypop, que insere no drama grego críticas ao atual momento político brasileiro, não conta necessariamente a história de Édipo, mas a de seu pai Laio.
A peça possui excelentes interpretações de Remo Trajano (Laio), Letícia Spiller (Jocasta), João Velho (Édipo) e Jorge Caetani (Freud). O musical traz canções de John Lennon;
Laio representa o Estado fragilizado, enquanto a própria força se encontra na Jocasta.











sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Primeira Dama da Costa Bela

No dia 02 de fevereiro assisti o espetáculo “A Primeira Dama de Costa Bela” do Davi Giordano. Primeiramente, muito me agrada ver no teatro uma peça que aborde a América Latina, e mais do que isso, consegue refletir suas peculiaridades e contradições, num momento em que as influências que sofremos são nitidamente norte-americanas.

Trata-se da história de uma primeira dama, impedida de pintar porque sua arte é uma ameaça política para o partido de seu marido. É bem interessante como a trama desdobra, a ponto dela, no final do espetáculo, tornar-se a presidente e ele ser o sensurado da vez, mostrando que tudo depende de quem está no poder.


Uma cadela que se chama Evita (alusão à EVITA, outro texto de Davi Giordano e também uma suposta influência que Costa Bela sofreria da Argentina, como se pode ver na versão de “Não chore por mim, Argentina”).


O texto e a direção possuem uma ousadia ímpar. Uma boa sacada de Davi Giordano foi colocar em duas obras que assisti (Evita e A Primeira Dama da Costa Bela), a mãe, personagem sempre marcante em qualquer narrativa, o ponto forte da mulher, sendo interpretada por um homem, e a trilha sonora, representando a teledramaturgia latina, o que veio a somar com o melodrama,implantado na medida certa. 

Seria interessante, que a exemplo dos nossos vizinhos do Cone Sul, outros dramaturgos focassem também na temática latino-americana devido aos últimos acontecimentos ocorridos como a morte de Hugo Chavez, a escolha do primeiro Papa latino americana e as revoluções que estão ocorrendo em solos brasileiros. Para que isso aconteça, a caminhada será longa. Mas, por hora fico muito satisfeito em ver que alguém está escrevendo sobre a América Latina, tão esquecida no teatro e que os trabalhos do Davi, seja Evita ou A Primeira Dama da Costa Bela, são de extrema qualidade. 




Dueto Para Um

Sem dúvidas, o SESC de Copacabana é um reduto dos bons espetáculos. No dia 24 de novembro ocorreu por lá o último dia de apresentação da peça “Dueto Para Um”, que agora em cartaz no Teatro do Jockey em curtíssima temporada. O texto é de Tom Kempinski  e está sob a  direção da atriz Mika Lins. É inspirado na história de Jacqueline Dupré, uma das maiores violinistas do século XIX, que na peça se chama Stephanie, sendo interpretada por Bel Howarick, que ganhou merecidamente o Prêmio APCA 2010 de melhor atriz. A personagem é extremamente apaixonada por seu ofício e no auge da carreira se viu limitada devido à esclerose múltipla e por insistência do marido procurou o psiquiatra Feldmann interpretado brilhantemente por Marcos Damigo.


Ela, esconde por trás do sarcasmos que carrega e do tom grave da voz uma mulher fragilizada e com medo de não conseguir acompanhar o marido. O psiquiatra a confronta o tempo todo, mostrando que outros caminhos existem e que ela pode se adaptar. O problema é esse, ela não quer se adaptar, não quer ser pela metade, quer ser uma mulher inteira para tocar o violino. Trata-se de uma batalha dura pela vida. Apenas quando ele explode e diz as verdades que ela precisava, mas não queria ouvir, é que a ficha começa a cair. 

Os figurinos de cores neutras conseguem igualar a paciente e o médico na condição de humanos, e mais ainda, o fato de estarem vestidos como concertistas nos leva a encarar os personagens como maestros. O texto é impactante e proporciona ao espectador uma reflexão sobre os limites do ser humano, que sem saída, cogita a hipótese do suicídio. No decorrer das sessões de terapia, o publico percebe o avanço da doença através dos olhos, das mãos e das posturas da atriz. Percebe em seus olhos que às vezes da vontade de resistir e às vezes da vontade de resistir. É aí que ele, sensibilizado com a dor da paciente, marca mais uma consulta. 



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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Tarô Sentido no Teatro Max Nunes

As cartas estão na mesa e em breve serão apresentadas no TEATRO MAX NUNES. O Espetáculo Tarô Sentido, aborda a história do TARÔ, baseado nas 22 duas principais cartas do jogo que teve seu início na França.Os elementos usados para retratar a histórias são personalidades que marcaram a época de vários países no mundo, cada carta retrata uma personalidade. O Mago, por exemplo, é comparado à figura de Gandhi que terminou uma guerra somente com o poder de sua voz. (FRASE: Não existe caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho), enquanto O LOUCO é representado por ninguém menos que Raul Seixas. Uma boa sacada, não acham? O elenco é composto por Álexis Diogo, Helio Menezes, Laynara Ferreira, Mirian Gonçalves e Taysa Viana, sob a direção de Mário Cardona. A peça estará no Teatro Max Nunes (Clube América): Rua Campos Salles, 118 - Tijuca) - próximo ao Metrô Afonso Peña às 20:00, e somente nos dias 28 e 29 de novembro. Inteira: R$ 30,00 / Meia: R$ 15,00.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Entrevista com Brenno Silva



Recentemente publiquei um livro intitulado “Poesia” com alguns de meus poemas. Para aproveitar este momento convido, então, o escritor Brenno Silva, que além de ter contribuído com a seleção dos textos que integram esta coletânea e de ter feito a capa, é o autor do texto de apresentação do livro. Então, Brenno, como você se define?


Então Brunno, eu tenho um poema dizendo que eu sou hipócrita, mentiroso e traidor. Sou um artista, componho músicas, poemas, atuo e faço tudo que esteja ligado com a palavra. Acho que o artista é uma espécie de traidor e sei que as pessoas infelizmente não entendem isso. A arte tem que incomodar, tem que provocar, se não, não é arte e sim apenas mais uma forma de entretenimento. Eu sou um artista comum.


Em quais escritores você se inspira?


Hoje em dia, minha maior influência é Fernando Pessoa. Mas, entretanto, eu comecei a escrever depois que conheci George Orwell; antes disso, eu só escrevia músicas fracas. Minha vida artística sempre foi um processo continuo, ontem foi Orwell, hoje é Pessoa e amanhã certamente será outro.


Como e quando resolveu fazer teatro? 


Desde criança eu gostei de representar. Quando eu tinha 14 anos, eu adorava imitar os dribles do Ronaldinho Gaúcho jogando bola. Aliás, eu sempre gostei de imitar as pessoas que eu achava interessante, e sempre gostei de mesclar as personalidades dentro de mim, porém, sempre mostrando que não era eu. Pensava sempre no teatro, mas não tinha condições de pagar um curso, e na época não existia cursos de teatro gratuitos e a vontade foi embora. Só que com 15 anos, eu comecei a tocar violão, comecei a escrever também e descobri a literatura; e foi quando a vontade de fazer teatro voltou e eu fui atrás, liguei pra vários e pesquisei sobre. Hoje faço um curso livre de teatro no Miguel Falabella.


O que prefere? Escrever ou estudar teatro?


Que pergunta difícil. Mas, eu acho que é escrever. Criar pra mim é fundamental e é o que me salva da loucura.

E me tira da solidão.



Que tipo de texto você não escreveria? E que tipo de cena você não faria?


Não escreveria nada que o Paulo Coelho escreveu. Cena eu faço qualquer uma que faça alguma movimentação reflexiva pra quem assiste. Por exemplo, atentaria a nudez pra refletir e não faria cena engraçadinha só pra entreter. Já fiz, mas não faço mais.



Para você o que é poesia?


Poesia é tanta coisa. Mario Quintanna dizia que poesia são os anjos do senhor estuprando as mais belas filhas dos mortais. Manoel de Barros diz que poesia é voar fora da asa e Neruda dizia que a poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem. Poesia é isso tudo e mais um pouco.



Por que o seu blog “Homólogo Psicodélico” tem esse nome? Pode falar um pouco dele?

Porque essas palavras me atraem. Tudo que eu faço, geralmente não tem significado com o real e sim com o meu consciente insano, desde já é uma psicodelia. O homólogo Psicodélico é a minha cabeça. É o que eu penso, gosto e odeio. É o que eu amo, o que eu invejo e o que eu desejo. É a minha mentira e a minha verdade. São minhas influências e tudo mais. É minha cabeça.


Como você enxerga o teatro brasileiro?


Fraco. Não só o teatro, como toda manifestação de arte. Aqui no Brasil é sempre o passado, é sempre antigamente. Poucos artistas visam o futuro. O legal foi o Renato Russo, o Adoniran Barbosa e realmente foram, mas o MELHOR ainda está por vir. Como diria o Belchior: - "O futuro sempre vem." 


Em sua opinião o que afasta os jovens da literatura e do teatro? 


Sinceramente, eu não sei. Tenho 18 anos, amo futebol, sou viciado em internet e etc... Mas sempre senti a necessidade de descobrir, de articular. Sempre senti sede de aprender e de me expressar, até porque sou muito tímido. Eu não sei o que passa na cabeça da rapaziada da minha geração, que não se interessam por essas maravilhas. Aliás, acredito que os professores são os maiores culpados disso; eles deixam essa rapaziada sem entender nada. Uma vez eu vi o Abujamra dando uma palestra pra pós-graduação de comunicação e artes na USP, e ele fez a seguinte pergunta: - "Quem aqui leu Eurípedes?" E ninguém conseguiu dizer nada sobre, então, minha mente tende a crer que isso é culpa dos professores, agora, o motivo realmente eu não sei.



Como então os professores poderiam agir para mudar essa realidade do nosso país? 


Esse assunto é muito delicado e engloba muita coisa. Primeiro eles precisam de investimento em massa, de verdade. Depois, eles precisam mudar. Tenho visto professores de filosofia cheios de certezas e professores de matemáticas cheios de dúvida; alguma coisa está errada. 90% dos professores são conservadores e 10% não tem espaço pra dar suas aulas e sofrem a censura financeira, que é a que hoje assombra qualquer meio de comunicação.Vou falar aqui o que eu nunca queria falar, mas, eu não tenho esperanças para com a educação brasileira.


Aproveitando a sua resposta deixo aqui um apelo aos leitores do blog para que leiam Eurípedes, George Orwell, Fernando Pessoa, Neruda, Manoel de Barros, Mário Quintanna e que ouçam mais Adoniran Barbosa, Renato Russo tão bem citados pelo Brenno no desenrolar desta entrevista. Brenno, mais uma vez, muito obrigado.